CRÍTICA | Dunkirk (2017): O Homem contra um inimigo sem rosto (Sem Spoilers).


A região portuária de Dunkirk (Dunquerque no português) foi a região aonde 300 mil homens ficaram encurralados entre o exército alemão e o mar. Em maio de 1940 a vida desses homens foi o alvo dos ataques e dos esforços de duas forças uma para salvar e a outra para destruir, um espaço de tempo aonde a sobrevivência era tudo o que importava. 

O novo filme dirigido e escrito por Christopher Nolan (trilogia Batman, O Grande Truque, etc) foca em um aspecto da vida humana que, apesar de corriqueiro, é ressaltado em tempos de grande crise como uma guerra, sendo esse aspecto o da sobrevivência. Por muitas vezes essa pode ser desonrosa, suja, desesperadora; a sobrevivência pode parecer até sem proposito frente a tamanhos obstáculos.

É nesse ponto que Nolan e sua equipe nos coloca com esse novo filme de duas horas (até curto levando pelos últimos filmes do diretor inglês). A câmera de Hoyte Van Hoytema nos coloca exatamente aonde estão os personagens, um subjetivismo impressionantemente plástico e igualmente visceral, mesmo sem todo o aspecto gráfico que temos em outros filmes como Resgate do Soldado Ryan e Corações de Ferro. Os planos são belamente pensados para trazer o máximo de sensações possíveis ao expectador, manipulando os ângulos e enquadramentos, num belo uso do cenário e dos objetos para criar perspectiva e percepção de tempo.


Para manipular tudo para que se torne possível o aproveitamento máximo dessas sensações, o filme é dividido em três perspectivas: A visão dos soldados encurralados, a visão dos marinheiros civis que se voluntariaram e a visão dos pilotos de avião, sendo que essas três perspectivas se passam em períodos de tempo diferentes, mexendo também com a nossa percepção de tempo e a nossa visão. O piloto vê e ouve na distância aquilo que vimos minutos antes (ou depois) acontecer bem na nossa cara. A tensão aumenta ou diminui conforme sua proximidade da situação e em nenhum momento o filme nos permite tomar distância como observador. Se não é a explosão que nos amedrontar por vir de longe, é a artilharia no encalço ou os problemas que surgem de um resgate. 

Perceba que até agora, mesmo falando do filme ainda não citei nenhum dos personagens em especifico. A verdade é que os personagens são pouquíssimos explorados como indivíduos ou personalidades fortes de fato. Entendemos ali como cada um se encaixa naquela situação em especifico e vemos suas reações durante cada desventura, porém não sabemos quase nada do que veio antes ou depois, o que deixa os personagens um tanto rasos e, não fosse a proximidade que temos da situação, seriam um tanto desinteressantes. Particularmente a escolha de abandonar totalmente esse desenvolvimento não me agrada, tanto que, sem uma pesquisa rápida no IMDB o nome de nenhum personagem me salta a cabeça. 


Mesmo sendo uma escolha controversa, ela funciona na proposta apresentada pelo filme assim que o mesmo deu início: mostrar todas aquelas peças sendo movidas no tabuleiro contra um inimigo impessoal e implacável. 

A cena que abre o filme não nos mostra o rosto de quem nos ataca, somente ouvimos e vemos as balas atingindo seus alvos. Os inimigos são as balas, as bombas, as armas que surgem no quadro sem um rosto apoiado ou uma mão no gatilho. É a luta do homem para sobreviver frente ao desconhecido, ao apático. Alguns filmes de guerra (inclusive os supracitados) tiveram como uma de suas facetas humanizar o inimigo, mostrando que este lado da guerra não está mais certo que aquele. Dunkirk não busca isso nem de longe. Não são pensados os porquês da guerra nem os custos, não se investigam os sacrifícios no fronte em contraponto aos governantes que discutem a vida de milhares como se fossem números numa folha de papel. 

Em um dos momentos silenciosos do filme, três dos soldados sobreviventes até aquele ponto veem um homem entrar no mar, tirar seus aparatos e mergulhar contra a maré que subia. No começo do filme o texto diz que é necessário um milagre, o mesmo milagre necessário para um só homem vencer a maré incontrolável. Seja o mar, a morte, os alemães, o desespero, qualquer qualidade de rosto ignoto, são aqui o alvo da metáfora que permeia o filme todo. Outro ponto que é salientado aqui, inclusive no exemplo que usei antes, é que um homem não pode enfrentar a maré, mas o coletivo lutando junto pode sim conseguir tal milagre. Pelo menos pode tentar.


Todas essas cenas são pontuadas no tempo certo com a trilha de Hanz Zimmer, está que não possui um tema central tão marcante quanto vemos num “Piratas do Caribe” por exemplo, mas que casa bem com a proposta do filme. Assim como a maior parte dos aspectos aqui apresentados, sejam eles diluídos ou potencializados, todos são manuseados para que beneficiem as sensações daqueles sentados no cinema, goste ele ou não. 

Dessa forma podemos perceber certas características do diretor, este que é um tópico de debates sempre que seu nome vem à tona, se potencializaram em detrimento de outras que, sinceramente, me fazem falta em alguns momentos. Uma coisa que irrita bastante é a necessidade que vemos de jogar na cara coisas que poderiam muito bem ser deixadas sem um comentário propriamente dito. Soldados se tornando filósofos em situações de desespero e a mesma característica do mar sendo repetidas em duas cenas seguidas me deixaram com a sensação de ser um idiota (não que eu não seja). 

Só para não deixar de fora, o filme conta com um elenco composto por nomes como Mark Rylance, Tom Hardy, Kenneth Branagh, Harry Styles, Billy Howle, entre outros. O filme infelizmente não possui nenhum personagem feminino de destaque, assim como possui uma gama étnica monocromática de personagens. Presta atenção Nolan!


Por fim, pode-se concluir que Dunkirk é um filme extremamente bem executado e que traz uma experiência cinematográfica e sensorial espetacular. Para aqueles que forem assistir dublado, assim como eu, vão encontrar boas vozes para cada personagem ali apresentado. Caso seu bolso e localidade lhe permitam, recomendo assistir em IMAX pois tal recurso deve intensificar por mil a sua reação ao filme. 

Mesmo em meio a tal furacão mundano podemos ver uma ponta de esperança, num filme que mostra que, em meio ao fogo e ao ódio, o esforço do homem comum ainda pode ser o suficiente para quebrar as ondas, bater a maré e deixar Dunkirk, seja lá o que ela for.