Encontros e Desencontros - Por Vinícius

* Nosso antigo autor Vinicius, que está desaparecido (e eu não estou brincando), escreveu um artigo sobre o filme Encontros e Desencontros de Sofia Coppola (que não é menos do que sensacional de linda) que até então não foi publicado. Achei legal a idéia de publica-lo agora, e caso alguem tenha noticias do Vinicios, por favor, entre em contato pelos comentários (e não estou brincando ²)

Encontros e Desencontros

Eu não sei, mas deve haver algo mágico cercando o nome "Coppola". Pois se o papai foi capaz de fazer uns épicos por ai (só a maior trilogia de todos os tempos, juntada com o maior filme de guerra de todos), a filhota conseguiu não só uma carreira firme, mas também realizou um dos trabalhos mais sensíveis, lindos e encantadores da última década: Encontros e Desencontros

Bob Harris (Bill Murray) e Charlotte (Scarlett Johansson) são dois americanos em Tóquio. Bob é um decadente astro de cinema que está na cidade para filmar um comercial de uísque. E a bela Charlotte acompanha o marido, John, um fotógrafo viciado em trabalho. Ambos estão no mesmo hotel, até que um dia se conhecem e começam a se encontrar cada vez mais, formando um grande laço.

O que muitos parecem confundir, porém, é achar que a obra de Sofia é um romance convencional, vendo apenas a superfície, praticamente ignorando todos os elementos para a construção de atmosfera que certamente fazem a diferença em relação a interpretação de todo o turbilhão de sentimentos colocados em tela. Encontros e Desencontros é um filme de nuances. 

O ritmo é pausado, as situações são desenvolvidas com cuidado, com a Coppola fazendo um excelente uso da trilha sonora (algumas vezes chega até a arrepiar), praticamente um atestado de seu amor pelos próprios personagens. Mas, apesar de Encontros ser um filme tão delicioso e equilibrado de ver, o clima é predominantemente de solidão - é uma obra sobre conexão (e ela entende isso e faz um essencial uso do silêncio).
O silêncio predomina. A garota que procura algum sentido carrega sempre um cigarro (ícone principal dos antigos personagens existencialistas melancólicos), e somos jogados direto na alma da personagem (interpretada de forma extremamente sútil por Scarlett - que está maravilhosamente encantadora como sempre), tal como na simples decisão de filma-la, solitária, encarando a cidade através da janela, com o vidro tão frágil que mal conseguimos enxerga-lo, numa triste tentativa de se conectar (é um filme ambientado no Japão, mas é incrivelmente universal) 
Pois os personagens acabaram de sair do seu estado comum (o homem, da família, a garota, da faculdade) e estão indefesos e com medo, praticamente sendo engolidos por aquele mundo caótico, lotado de pessoas e luzes (lindo, embora extremamente opressor - é quando nos damos conta de somos apenas 1 em 7 bilhões), onde ninguém parece falar a mesma língua, ninguém os entende (o cara falando pelo telefone com família, enquanto ele fala de saúde sua esposa fala do carpete) até que encontram alguém igualmente melancólico e perdido (Bill Murray num papel tipicamente murrayano - uma espécie de Bogart mais depressivo e anti-social) onde podem ficar juntos, não mais isolados, apenas na companhia um do outro e silenciosos, sem precisar dividir nada, nem mesmo com o espectador (não conseguimos ouvir o que ele sussurra para ela no final - o que demonstra a segurança de Coppola em sua história). Depois de tanta angustia, eles finalmente se conectam, talvez não com o mundo, mas com algo muito maior, tal como eles mereciam, tal como nós queríamos. 

Coppolinha, sua linda!