Sobre Hitchcock, Truffaut e as melhores coisas da galáxia

Atualmente, basta abrir qualquer livro de cinema que é quase impossível que Sir. Alfred Hitchcock não seja citado. É só dar uma fuçada em qualquer site de crítica ou matérias sobre a sétima arte que o Mestre do Suspense é mencionado em algum lugar. Mais, até: se uma pessoa se diz cinéfila e não viu algum filme dele, é logo xingada de poser (da minha parte eu garanto). 

Mas nem sempre foi assim. E é ai que entramos no tópico do livro Hitchcock/Truffaut e as melhores coisas do Universo.

[justificando meu atraso cinéfilo de só ter lido Hitchcock/Truffaut agora] Eu sempre quis ter o livro em mãos. Mas, sabe como é... raridade, preço e tals. Mas, felizmente, ganhei de presente. Minha empolgação foi algo mais ou menos parecido com ISSO.  


Enfim, nada disso interessa. A grande questão aqui é Hitchcock. E Truffaut. E o Cinema. Tudo isso em sua mais pura forma. 

Como disse, "nem sempre foi assim". Pois é, o atual mito que é Hitchcock, em sua época, foi severamente criticado em diversos filmes. O sucesso era apenas com o público, as massas. O que o levou a ser chamado de "cineasta comercial, não arte". Manja aquela velha dicotomia (imbecil) de cinema entretenimento e arte?

Só que a crítica francesa (pessoal da Cahiers du Cinema) fez questão de dar o verdadeiro tratamento que o gorducho merecia. E entre eles estava, provavelmente, o mais acalorado e fanático fã da obra de Hitchcock: Truffaut. Já na introdução ele comenta de vários capítulos que chegou a discutir horas e horas com os críticos americanos, querendo convence-los de todas as formas. Chega até a ser engraçado ver o francesinho puto falando "e ele me falou o seguinte absurdo" ou "um comentário tão bobo que" e coisas assim. 

Mas mesmo assim a subestimação do cineasta continuava. Até que Truffaut, em meados dos anos 60,  teve a brilhante ideia de gravar uma entrevista com Hitchcock explicando seu cinema (ou "O Cinema") filme por filme, proposta por proposta, teoria por teoria. E depois converter tudo em livro.

E é ai que está a questão: não é simplesmente uma conversa com um gordo rico explicando seus filmes. É uma conversa (e talvez uma das maiores) sobre a essência do cinema, um testamento, uma carta de amor a tudo que esta maravilhosa arte representa. Pois Hitchcock é Cinema. 
Dali, começamos não só acompanhando a história de um jovem ingênuo subindo com sua carreira cinematográfica mas também a teoria por parte de todos os filmes através de toda a história do Cinema, praticamente. Afinal, foram fucking 53 filmes. 

Desde as coisas mais divertidas como as suas aparições nos filmes e piadas e acontecimentos malucos durante a gravação, até partes dramáticas como a pressão do estúdio e da mídia, com momentos sérios e teóricos, discutindo puramente a linguagem do cinema, com seu discurso sempre fiel: a priorização da imagem ao falado, a concentração de sentimentos em prol do suspense (o próprio espetáculo) e o visual enquanto invocador de sensações da platéia. Pois Hitch não fazia filmes apenas pra si, mas também pensava no público. O que o movimentava, além de se expressar, era o prazer pelo ato de fazer Cinema. É realmente lindo. 

Sua própria história quando criança, em que dizia não brincar com as outras crianças pois preferia ficar sozinho, armando suas próprias histórias (!!!). Sempre foi um manipulador, um contador de histórias. Um dos ápices do livro foi sua resposta rebelde aos críticos, dizendo que não ligava para verossimilhança, jogava-a no lixo - o que importava era o espetáculo, a imersão (e ele se dirige aos críticos como "nossos amigos verossímeis", numa alfinetada engraçadíssima). Pois o cinema é uma grande mentira. Ou como Truffaut definiu: "intensificador da vida". Puramente isso. 

Sua personalidade sempre espirituosa, interessado em discutir a obra, sem ilusões egocêntricas, sempre falando "nós fizemos...", e que, conforme a entrevista vai desenvolvendo, quebra as máscaras e ele se revela um ser profundamente sensível, puro artista e perfeccionista com a obra. 
Através do debate percebemos como Hitchcock era à frente do seu tempo. Sempre procurou inovar (e ele alega: "eu nunca me repito"), fazendo o gênero e as estratégias do cinema tomarem outra proporção. Seja nas novidade do esquema de roteiro como o MacGuffin, até suas trucagens, movimentos com a câmera inimagináveis e a esperteza de abordar temas (para época) chocantes como sexualidade, selvageria e amor subliminarmente. Para o mestre, o roteiro era o menor do cinema, o que importava era a câmera, a linguagem que faz o cinema a maior arte de todas (e ele realmente chega a dizer algo parecido com isso, durante o livro). 

Há, incluído na conversa, todo um olhar nostálgico em relação ao cinema nas décadas de 40 e 50, quando as pessoas se maravilhavam mais com as novidades, épocas dos grandes eventos de primeira exibição de um filme. Parecia tudo mais humano e divertido. 

O mérito também é que a conversa em torno de sua obra faz muitos de seus filmes tomarem outras proporções. Hitch é tão à frente do tempo que nem eu consegui entender perfeitamente Um Corpo que Cai pela primeira vez. E só fui perceber a genialidade da coisa (e minha burrice no primeiro julgamento) após as conversas e uma revisão. Atualmente é um dos meus 10 filmes favoritos. 

Ele é realmente um ser extraterrestre, parece de uma raça superior (e, não, não sou neonazista!). Ver o mestre se abrindo, falando sobre sua paixão é realmente envolvente e contagiante, dá até vontade de ver todos os filmes da história. Outros diálogos como o debate sobre Janela Indiscreta ou suas explicações sobre cada plano planejado expressando sua visão estão presentes. Enfim, não faltam passagens marcantes.
O final, sobre seus últimos momentos de vida (ainda tentando fazer filmes!!), é realmente tocante. Ali, ele simplesmente se revela, quebra a caricatura. Um ser realmente admirável. Um artista de "A" maior, um "sensível bárbaro" como outrora definiram, que depois de sua morte, o Cinema nunca mais voltou a ser mesmo.

Agora, licencinha que tenho 53 filmes pra ver ;)