Amor Pleno

Crítica

No decorrer de sua carreira, o cineasta Terrence Malick foi ficando cada vez mais ousado e ambicioso. O inicio de sua filmografia marca a introdução para os elementos básicos de seu cinema: a natureza, o amor, a juventude, fé... temas que sempre foram foco do texano e se repetiram até aqui, em Amor Pleno. 


Porém, se antes ele costumava, dentro de seus padrões, contar histórias com certa formalidade, a partir do novo século, seus novos filmes tomaram um caráter quase experimental, não ligando verdadeiramente em contar uma história, mas sim utilizar puramente a imagem para fazer com que o espectador sinta o que ele quer dizer.

Se os detratores de Árvore da Vida reclamavam que faltava foco (o que está longe de ser verdade), Amor Pleno é um prato em cheio para seu haters. Pois nem história tem. É um filme fragmentado, quase como um monte de memórias jogadas, narradas por reflexões filosóficas. Porém, todo filme ensina a lê-lo. E, bem, ouso dizer que quem não gostou de To The Wonder, simplesmente não entendeu - e nem é o Malick mais pesado, é bem leve, na verdade. 

Precisamos partir do ponto que Amor Pleno não é uma história de amor. Enquanto acompanhamos a jornada do casal se separando, se unindo, questionando, Malick faz um filme estritamente focando na mente de seus personagens, concebendo-se quase por inteiro nessa subjetividade.

Nesse sentido, o cineasta cria um ambiente não verossímil ou entendível, mas sim que expõe o estado espiritual do casal. To The Wonder é, acima de tudo, um filme sobre solidão. É um filme que se passa especialmente nas cidades, entre ruas, supermercados e carros, o que Malick, nos seus típicos confrontos entre natureza e humanidade, explora de forma através de um corte repentino da trilha para os sons diegéticos ou de planos fechados para sensorialmente passar a ideia de opressão constante.

Os personagens, mesmo quando juntos, estão sozinhos, isolados dentro de si. As brigas acontecem dentro dos apartamentos (e as janelas destes tomam contornos de grades de prisões). A mulher, em um ponto do filme, só consegue falar com a filha via Skype - Malick pintou um quadro das relações humanas no mundo moderno. Os deuses caíram. Não há mais sagrado. A única coisa onipresente é a solidão.

Mas são nos momentos de paisagens naturais, a contemplação do sol, uma brincadeira entre mãe e filha ou em um simples sexo que Malick abre o coração - são nesses momentos que Amor Pleno ganha vida (e ele investe em trilhas sonoras e fotografias líricas, como uma verdadeira poesia). É uma espécie querendo resgatar o espiritual, o metafisico, o amor.

Por isso que este é um dos filmes mais lindos do ano. Por isso que Terrence Malick continua no topo.